Apesar dos pesares, a política ainda é a única forma de um povo se emancipar ou não!

Por Emílio Oliveira
O voto que foi a mais importante das prerrogativas que o Estado, quando de sua concepção mais moderna concedeu ao homem comum, permite periodicamente a ele ter as rédeas de seu destino em suas próprias mãos e, no nosso caso particular, de quatro em quatro anos escolhendo os seus representantes. Só que votar, antes de ser um ato puramente emocional como tem se mostrado, deveria ser bem mais racional, pois como sempre se tem observado na prática, é justamente dessa racionalidade que depende a evolução ou não de nossas cidades e suas comunidades.
No dia 15 do mês em curso ou mais precisamente no próximo domingo, todos nós cidadãos grossenses por nascimento ou por opção, e, até mesmo aqueles estranhos ao nosso ninho, mas que para agradar a amigos ou recompensar conhecidos que lhe prestou algum favor transferiram seus votos para o nosso município, terão também em suas mãos, o direito de eleger os nossos próximos representantes - quer seja o do poder executivo, que é o prefeito - quer sejam os do poder legislativo, que são os vereadores. 

Os que são daqui ou vivem aqui, serão os responsáveis diretos pelo futuro de todos nós. Quanto aos de fora, mesmo não residindo no município eles também contribuirão de forma parcial para o que vai acontecer conosco no próximo quadriênio. Sempre fui contra os votos de fora e não apenas porque politicamente já fui vítima deles, mas porque é um voto bem pior que o emocional, pois antes de tudo ele, além de criminoso, é também irresponsável.

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Na história política do nosso rico município de povo pobre, muitas campanhas memoráveis foram decididas por esse voto irresponsável que infelizmente construiu esse futuro que temos agora. E foi justamente por esse motivo que por mais de dois anos, juntamente com outros companheiros de partidos afins ao meu, lutamos por uma revisão eleitoral que felizmente aconteceu e, como ficou patente nela, foram proscritos 1.211 votos de outras cidades que vinham aqui apenas de quatro em quatro anos decidirem os nossos destinos.

Refiro-me a nesse fato danoso de nossa política local porque em conversas informais com alguns agentes atuais da nossa política tradicional, tenho percebido nas entrelinhas, algumas vagas referências a essa prática política, fato que pode, inclusive, decidir o pleito que se avizinha. Eu tenho a hora de dizer que fui candidato a prefeito dessa cidade em 1996 e sequer o voto de uma pessoa que viveu na minha casa por 23 anos e foi quem por todo esse tempo praticamente cuidou de minha filha enquanto eu e minha esposa trabalhávamos eu transferi para votar comigo, embora que ela própria tenha insistido muito para que eu transferisse porque queria realmente votar em mim.

Pelo que se ouve nas conversas e também se observa nos comícios e passeatas, mais ou menos já se tem um vislumbre do que pode e vai correr no dia da eleição. Mas o problema é que ninguém sabe exatamente quantas pessoas de fora vão votar aqui no dia da eleição e esse fato pode mudar o quadro e gerar uma surpresa como muitas que já tivemos no passado. Não me preocupo muito com as pesquisas porque, infelizmente, elas parecem que estão sendo feitas mais para agradar ao gosto do freguês do que para espelhar uma realidade, o que é uma pena.
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Após mostrar a minha preocupação com os votos alienígenas, cujos donos deles geralmente são os que dispõem de mais recursos financeiros e logísticos para mobilizá-los e cooptá-los no dia da eleição, pretendo focar agora especificamente no voto emocional e no voto racional, já referido no primeiro parágrafo.

Votar, teoricamente é escolher o melhor, o mais capaz, o mais preparado, o mais experiente e o mais comprometido com as transformações que precisam ser feitas para se mudar positivamente o perfil de qualquer cidade, estado ou país. Todavia, a gente sabe das imperfeições e distorções que o próprio sistema capitalista impõe a política partidária comandando-a, e esse ainda é um fenômeno que ocorre em toda parte onde existir um sistema econômico por trás, da mesma forma que também ocorre onde houver o sistema socialista ou comunista, pois em alguns desses lugares o povo sequer tem ainda o direito “livre” de votar.

Para um eleitor escolher baseado em todos esses critérios cidadãos acima apontados, ele precisa ter tido primeiro uma educação de qualidade, depois um emprego digno com um salário que lhe permita viver sem que seja necessário - vez por outra -, está batendo na porta de políticos para conseguir algum beneficio que lhe é de direito, mas que nem o município, nem o estado e nem a união lhe asseguram de verdade.

Então, um somatório de carências vai se acumulando com o tempo e chega um momento em que o eleitor e família ficam totalmente a mercê dos políticos que mesmo assim ainda se passam por bonzinhos apenas atenuando essas carências, porém nunca resolvendo-as de vez – até porque elas são de tal magnitude - que nenhuma entidade municipal, estadual ou federal poderiam saná-las totalmente.

Pois deve ser baseado justamente nessa realidade que se o nosso eleitor quiser votar com um pouco mais de consciência política, terá que filtrar quem são os melhores candidatos não para resolver definitivamente todos os problemas acumulados por uma população totalmente abandonada pelo poder público em todos os níveis e que somente olha para ela e a procura, quando das eleições e apenas para eleger de novo com o seu voto, seus eternos candidatos.

Qualquer cidadão que não tenha recebido do estado o que o estado constitucionalmente lhe deve resolver realmente acabar com esse ciclo de manipulação, dominação e exploração no qual somente você e sua família sofrem as terríveis consequências do abandono e do desprezo, basta somente não votar em quem tentar comprar o seu voto e levar junto com o pacote também a sua consciência.

Se alguém lhe oferecer dinheiro ou qualquer outro benefício em troca de seu voto, receba o que lhe prometeram e já que não lhe deram a condição de contestá-los e inclusive de denunciá-los, prometa também o seu voto e de sua família e, lá na urna, vote justamente contra eles e seus partidos e não seja nunca mais grato com quem somente se torna bom para você no período da campanha e no dia da eleição. Esses tipos de políticos são os maiores inimigos de seu povo porque é justamente através desses artifícios, que se perpetuam no poder e as coisas sempre pioram para você eleitor.

Esse é um ciclo de bestialidades que vem ocorrendo em nosso país, e por mais que às autoridades da justiça eleitoral os monitore e os combata como realmente o fazem, ainda não dispõem de recursos investigativos e nem de efetivos suficientes para fragá-los e condená-los na forma da lei. Portanto, ou você próprio eleitor destrói esse repetitivo ciclo que o manipula e escraviza com o seu voto, ou você vai continuar totalmente dependente dessa prática política maniqueísta de dominação em que você será sempre a vítima e, eles, os políticos sem dignidade, os beneficiários maiores dessa farra eleitoral que se repete em quase todas as eleições municipais.
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Talvez o leitor desse meu desabafo cidadão possa até pensar como eu devo ser uma pessoa revoltada com a política que se pratica principalmente nos nossos cada vez mais pobres municípios aqui do Nordeste, se a política é tão animada, o povo pula e canta as músicas de seus candidatos, tem dos paredões de som monstruosos animando a festa e que nas passeatas se tornam mais importantes que os próprios candidatos, tem cerveja à vontade, mulher bonita e cheirosa, é como se fosse um verdadeiro carnaval e afinal de contas o que esse maluco quer mais?

Eu respondo afirmando que ninguém gosta da política, quanto eu. Mas, fui obrigado a abandoná-la por não concordar com essa forma como ainda se faz política com o único objetivo de se ter sucesso eleitoral, apenas distraindo e enganando o povo durante o período da companha. Se o politico não mentir, se não prometer o que não pode fazer, se não brincar com os sonhos e as esperanças das pessoas mais pobres e humildes gerando expectativas puramente vãs, certamente não terá sucesso.

Foi esse o motivo porque eu resolvi me afastar desse tipo de política que chamo de politicalha, e ficar apenas como um cidadão comum observando as mais grotescas e dramáticas cenas que nunca mudam porque nem os políticos mudam e nem o próprio povo muda também. E quando vez por outra aparece alguém com uma pregação cidadã e diferente da normalidade que o povo não conhece, ele, o povo, simplesmente não vota porque aquilo lhe soa vago e distante demais para ser alcançado.

Noutras palavras: essa concepção gerou na própria cultura do povo uma espécie de utilidade política marginal onde ele somente é procurado, paparicado, consultado e valorizado no período da campanha e no dia da eleição. Então ele aproveita para levar também a sua parte bem menor, mas que lhe foi negada durante os quatro anos daquele mandato.

E esse infelizmente se constituiu com o tempo no maior dilema do próprio povo que - pelo fato de desconhecer uma prática política cidadã diferente da que perversamente sempre lhe foi imposta, a rejeita. Então, a meu ver só tenho a lamentar, mas pelo andar das coisas: “tudo irá continuar como dantes, no velho quartel de Abrantes”!... Contudo, se dessa vez houver uma bela surpresa que ainda não disponho de elementos para acreditar, me darei por satisfeito!...

Grossos (RN), 11 de novembro de 2020. Emílio.

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