A trajetória (nem sempre tranquila) da política

Por Antonio Renato*
Na sua evolução, a política assume variadas formas. Ela é o mecanismo do Estado para indicar seus dirigentes. O Estado é um fenômeno histórico, produto do avanço das forças produtivas, e num sentido amplo, surge para organizar a produção, que é condicionada pelas classes sociais.
Foi na Grécia que ela ganhou, pela primeira vez, uma condição de autonomia, livrando-se das amarras ideológicas da religião. Os chefes políticos deixaram de ter fundamentação divina. Ao mesmo tempo, a sociedade, as classes sociais, passou a guiá-la. Em outros momentos históricos, sob outras condições, ela sofreria retrocessos. A dinâmica social e seus interesses, deixa de ser sua mola principal, dando lugar mais uma vez a metafisica, a religião e suas variantes filosóficas. Era a idade média, marcada pela fragmentação política e enfraquecimento do poder dos reis. 

A política é fenômeno humano e como tal deve ser encarada. Esse aspecto é que deve se sobressair. Toda a carga da condição humana, os interesses individuais, as ambições, a postura de sempre levar vantagem, todos esses traços, próprios do homem, enquanto ser social, ao longo do tempo, existe e é refletido na política. Mas existe em todos os aspectos da vida em sociedade. Não é uma característica só da política. Por outro lado, os valores de solidariedade, coletivismo e igualitarismo, também estão presentes na política. A história taí para comprovar.

Modernamente também, temos muito a louvar da atividade política, enquanto fenômeno presente nas nossas vidas. Em todas as sociedades modernas, de uma forma ou de outra, a sociedade, com suas contradições, lhe dá os rumos. Essa grande conquista civilizatória, data lá do século XVIII, com o fim da condição de súdito do indivíduo, e ao mesmo tempo, à passagem a condição de cidadãos, por meio do voto universal, inicialmente só para os homens, depois estendido, com o tempo, às mulheres.

Outro aspecto de sua evolução, é a possibilidade de participação na política, portanto nos órgãos de Estado, das classes populares. Até o século XVIII, só os grandes proprietários de terra, a aristocracia, e depois os comerciantes e industriais (a burguesia) usufruíam dessa prerrogativa. Essas classes, por conta da sua condição econômica, podiam participar da politica e portanto podiam governar.

Essa situação nos remete a refletir dos motivos que dava sustentação a essa realidade. Primeiro, existia uma condição legal. As leis existiam nesse sentido, de permitir a participação apenas desses segmentos. As constituições colocavam obstáculos a participação politica das amplas massas da sociedade.

Outra situação que impedia a participação das classes populares na política era de ordem social. A política é uma atividade que é exercida por uma vanguarda de classe. Essa vanguarda, defende os interesses econômicos dessa classe social. Nesse sentido a atividade política exige uma dedicação exclusiva, um tempo dedicado a estudar e entender a organização do Estado, seu aspecto legal (as leis), as instituições e seu papel, etc. Disso decorre a seguinte imposição: todo grupo social, que almeja melhorias econômicas, tem que ter sua representação política.

Diante dessa realidade objetiva, os grupos “endinheirados” possuem uma margem enorme para atender essas exigências da política. Um empresário ou um latifundiário por exemplo, pode deixar suas empresas, suas fazendas, os seus negócios enfim, com outros membros da família. Ele assim, pode se dedicar inteiramente a política. Da mesma forma, nos dias atuais, os setores da burocracia estatal, a chamada pequena burguesia. Por outro lado, como fica a situação das classes que desprovidas dos meios de produção dependem de vender sua força de trabalho em troca de um salário? Que estão no andar de baixo de uma sociedade? Abandonam seus meios de sobrevivência pra serem representantes de sua classe social, pra se dedicar a política? Há quem defenda que “o mundo é assim”, o trabalhador deve escolher. Uma coisa ou outra. Aí também está contida uma ideologia, uma forma de ver e desejar a organização da sociedade, onde só os “bem aquinhoados”, poderiam participar da política.

Foi no contexto de conquistas sociais, de espaço na política, que em meados do século XIX, surgiram as organizações de trabalhadores. Entre as formas variadas de luta popular, surgiu na Inglaterra o chamado movimento Cartista. Não era uma expressão revolucionária daqueles movimentos operários. Atuava no sentido de viabilizar a participação dos trabalhadores no parlamento inglês.

Para efetivar essa conquista, entre as propostas do movimento cartista, estava a remuneração dos parlamentares. Portanto, a remuneração dos políticos, é uma conquista civilizatória; é um avanço na luta por mais espaço na política. E mais, de iniciativa dos trabalhadores. Não tem nada de absurdo e imoral. Impõe-se a desmistificação dessa visão absolutamente distorcida e sem fundamentação histórica.

É preciso identificar o grande sentido da política. Ela produz, como disse lá atrás, os governantes. Por isso, de uma ou outra forma, exposta ou mais velada, todos, inconscientemente as vezes, dependendo da organização politica que a historia de cada povo produziu, no momento e da forma como é chamado, faz a sua opção política, uma vontade sobre como deveria ser sua cidade, estado ou pais.

Os indiferentes ou pra usar um termo que eles gostam muito, apolíticos, ou carregam um individualismo extremo, que remete a um vínculo inocente, porém sincero com uma certa filosofia liberal, particularmente nos costumes, junto com a ideia da tal meritocracia, desconhecendo o papel do Estado (da política) na manutenção do tecido social, ou fazem uso da hipocrisia, tentando passar uma realidade que no fundo ele próprio não compartilha, a de que “ah!, eu não dependo disso”, quando na verdade são os que mais se utilizam da política visando apenas seus interesses.

Sem me alongar muito no contraponto a essa sandice, não é preciso se aprofundar muito pra perceber aí, também uma postura política. Um grande empresário, tanto da cidade como do campo, o tal do agronegócio, em tese, deveria ter um distanciamento da política. Na realidade, são os que mais se dedicam a ela, pois é na política que perpetuam seus interesses seculares de classe. Portanto, todos devemos gostar da política, pois as elites, de todas as formações sociais sempre gostaram.

No Brasil dos tempos atuais, a política é alvo de uma serie de tentativas de colocá-la num altar. De repente surgem do nada “anjos vingadores”, arautos do velho moralismo, sempre querendo afastá-la da condição humana. Não percebem a contradição que praticam. Estão na política como se tivessem incomodados, num campo maculado, cuja missão é livrá-lo dos impuros.

Desejam uma política sem os políticos. Lançam sugestões estranhas, com certas exigências de “qualificação”, ressuscitando modelos seletivos, como se a política fosse “melhorar”, tal qual uma empresa, por meio de provas de títulos.

A política é fenômeno humano e social. Quanto mais sociedade no seu desenvolvimento, mais ela se aperfeiçoa. Traduzindo: quanto mais gente, quanto mais amplo os instrumentos de participação popular de um sistema político, melhor. Não por acaso é um termo de origem grega, pois foi lá nas cidades-estados da Grécia, que o povo (daquela época) começou a participar das decisões das Polis.

Ela caminha com as próprias pernas. Outras superestruturas ideológicas, como é o caso da religião, os sistemas jurídicos e seus operadores, os juízes, devem ficar no seu lugar. Não convém misturar as coisas. A política só melhora pela própria política.

*Professor da Escola Estadual Coronel Solon.

Postar um comentário

0 Comentários