sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
Por Antonio Renato* 
Terminamos o primeiro mês de um novo “velho governo”. Ocorre que o chefe da equipe não arreda o pé do palanque, com suas declarações desencontradas e que vão do nada pra lugar nenhum. A tarefa de governar um pais complexo como o nosso tá se configurando um fardo pesado para a horda barbara que tomou de assalto os desígnios da nação. 

Cada pronunciamento presidencial tem sido marcado pela ideia do tal “viés ideológico” e a determinação de exorcizar o “fantasma do socialismo”. Pois é, o Brasil, segundo o ansioso presidente, “flertava” com esse regime político e econômico e ninguém sabia; nem os chefes de Estado que nos governaram nessa fase da chamada redemocratização. Certamente Color, Fernando Henrique e o próprio Lula, não imaginavam que chegaram a governar um pais socialista/comunista. 

É desolador presenciar o nosso pais se degenerar numa marcha descontrolada, de forma absolutamente insana. É a demência triunfando soberana nas terras de pindorama. Nesses dias, deu-se a constatação da indigência instalada lá para as bandas do planalto central, quando da participação do Brasil no encontro anual da nata das finanças mundial, dos representantes do deus mercado e da religião neoliberal, o desimportante fórum de Davos, onde um desorientado e titubeante presidente mais uma vez exercitou o que fez durante toda a campanha eleitoral: um discurso vazio, carente de conteúdo, que denotava uma completa ausência de rumo no sentido do enfrentamento dos problemas reais do pais. 

Nesse sentido, o presidente não decepcionou seus seguidores mais empedernidos, pois não deixou de lado os bons tempos da contenda eleitoral, como se tivesse falando para seus eleitores, longe, muito longe da postura de um chefe de Estado. 

A grande questão é que além da sua conhecida limitação, o presidente não tem muita coisa a apresentar. O projeto político-econômico, que é uma verdadeira obsessão do governo atual brasileiro, já é demasiadamente conhecido e tem tido na história o consentimento e o auxílio determinado das nossa elites que rigorosamente nunca deixaram seu traço colonial. Ele não tem nada de novo. Na verdade veio junto com as caravelas de Cabral, embalou a aristocracia proprietária de escravos, quando nos desligamos de Portugal e os barões de café na República, satisfeitos com o pais de café com leite. 

Ele pretende na verdade acabar com qualquer vestígio do Estado nacional, do ponto de vista da sua função histórica, que é construir num determinado território uma nação altiva e ativa, pois foi assim com os povos onde o Estado Nacional surgiu pela primeira vez, agiu. O objetivo despudorado desse povo desalmado é a volta do Brasil a condição colonial. No entendimento deles não devemos ousar, jamais, a passagem a uma etapa econômica superior. 

A intenção do atual mandatário, mostrada como algo positivo, mas só na cabeça de seus seguidores, é a inserção do Brasil como Estado inferior, de alinhamento automático a grande potência do norte, e da parte de seu núcleo econômico, a destruição completa da nossa base industrial. Com Guedes à frente da economia, estamos caminhando firmes e fortes para nos tornarmos tão somente uma região fornecedora de bens agrícolas e commodities minerais. Nossa caminhada suicida rumo a desindustrialização é, indubitavelmente, o programa desse governo. 

Pra todo esse estrago civilizatório nacional, ainda conta com o apoio das nossas forças armadas, que depois da segunda guerra, jogou por terra seu passado nacionalista e popular, como foi na proclamação da República e com os tenentes na década de 20, doravante se pondo como uma espécie de quinta coluna e instrumento poderoso dos interesses das nossas elites históricas. Infelizmente, temos hoje forças armadas que tutelam a vida política do pais em favor de uma minoria e que não corresponde ao significado do surgimento de tal instituição entre os povos, qual seja a defesa intransigente da independência e soberania da nação. 

Verdade seja dita, o presidente atual não inaugurou essa pratica de sabujismo enojante. Ela vem desde a década de noventa. Nesse momento trocamos a opção do desenvolvimento pela “canto de sereia” da tal estabilidade econômica, cujas bases são os juros altos, a política de câmbio livre e o regime de metas de inflação. 

A diferença é o radicalismo quanto a aplicação (privatizar tudo para abater numa certa dívida pública que nunca foi auditada) e o fato de o atual modelo está revestido de elementos construídos na esteira de uma profunda desesperança na atividade política e no ambiente do fanatismo religioso, constituindo um fenômeno farto e abundante de manipulação popular. 

O Brasil durante a segunda metade do século XX, foi um dos países que mais cresceu economicamente no planeta, junto com o Japão, que saiu arrasado da segunda grande guerra, e a antiga URSS e seu modelo de socialismo. Saímos da condição de uma grande fazenda para a de sexta economia do mundo. Mas como conseguimos alcançar tal condição. Pois bem, conseguimos e não é pouca coisa, com instrumento bem reais e dos quais outros países já haviam utilizado, e que pra desespero dos arautos do neoliberalismo faz parte da experiência histórica, não podendo ser desconsiderados. 

Primeiro, devemos ressaltar o fenômeno político, tão injustamente tratado nos nossos dias, pois foram políticos ou forças políticas, e não podia ser diferente, que estiveram à frente dessa grande gesta. E na sequência da política, o Estado. Justamente o Estado, tão execrado pelo economistas ganhadores de dinheiro e executivos de grandes bancos. 

O Estado nacional, este instrumento civilizatório, decisivo, fundamental, na formação da grandes economias do mundo, alvo de ataques preconceituosos, tanto a esquerda, lamentavelmente, como por parte da direita nacional colonizada. Os ataques sofridos dessa última, são compreensíveis, afinal de contas ela é sócia dessa inserção subordinada do Brasil nas relações internacionais. Seus ideólogos locais na medida que atacam o papel do Estado se postam como liberais, num jogo de palavras que confunde as pessoas, mas que no fundo tem uma lógica, pois direita política e liberalismo econômico são faces de uma mesma moeda. 

Quanto a uma certa esquerda, que já foi mais incisiva nessa crítica, o desconforto no que tange ao papel histórico do Estado, é fruto de uma interpretação errada do desenvolvimento histórico brasileiro, da colonização portuguesa, que engendrou a ideia de patrimonialismo, que por sua vez, segundo autores respeitados desse campo, desenvolveu o germe da corrupção, supostamente instalada nas entranhas da burocracia estatal. Ademais, levou a construção de uma aversão a chamada “Era Vargas” e a ausência do nacionalismo como base de seus programa político. 

Em resumo a corrupção seria uma particularidade do Estado. Foi essa a base sociológica que construiu um disparate ideológico, que infelizmente parte majoritária da esquerda e seu maior partido, nos seus primórdios, abraçou, mas que na verdade, só serviu, nos momentos cruciais da nossa história, aos propósitos da direita, serviu e antipatriota, para alimentar um falso moralismo, base do discurso desta. Carlos Lacerda, o corvo, o homem que derrubava presidentes nacionalistas, e a Lava jato, não passam disso. 

O Estado, no Brasil, liderou o chamado nacional-desenvolvimentismo. Na ausência de uma verdadeira burguesia industrial, nacionalista, o Estado, particularmente o longevo governo de Getúlio, por meio das empresas estatais, construiu toda a nossa infraestrutura econômica, a indústria de base. Criadas por Getúlio, empresas como a CSN e a Vale do Rio Doce, foram privatizadas nos anos noventa pelo entreguíssimo de FHC, e deu no que estamos presenciando atualmente, quando a ideia do lucro acima de tudo, leva a acidentes ambientais e humanitários como o dessa semana em Minas Gerais. 

Até o período militar(1964-1985) não ousou desprezar esse imperativo da história econômica das nações, embora dentro de uma lógica dependente e subordinada, que na verdade se constitui numa matriz de desenvolvimento própria desse período, que tem suas características, diferindo do trabalhismo getulista, que claramente tinha uma viés social, de inclusão das massas no desenvolvimento do pais. 

O grande problema do nacional-desenvolvimentismo, era a contradição histórica, que se demostrou insuperável, nos moldes do nosso capitalismo dependente: nos falta, por conta de nossa história econômica, uma burguesia nacionalista, que liderasse um projeto de nação. Muito pelo contrário, no fluxo da história, ela se opôs e atualmente se opõe a um projeto nacional. Nunca tivemos, ao contrário dos países de desenvolvimento capitalista clássico, uma burguesia nacionalista. 

Forças políticas com esse propósito até se constituíram (Getúlio, JK), mas nunca tiveram o apoio, nesse intento, de uma “classe burguesa”. 

A história econômica do Brasil comprova: não há condições de promover um desenvolvimento nacional, com justiça social, que é a razão de ser do desenvolvimento econômico, dentro da vigência do nosso capitalismo periférico. Este não tem como ser verdadeiramente nacional, como são os dos países da Europa ocidental e da américa anglo-saxônica. 

A tarefa de um Brasil de postura altiva só pode ser alcançado por meio de uma etapa e experiência política e econômica superiores. Assim tem sido nos países de desenvolvimento histórico semelhante ao nosso. 

Na atual quadra histórica, isso tem se configurado, no sentido de que as nossas classes hegemônicas, as mais tradicionais e as dos tempos atuais, não hesitam em recorrer as saídas de cunho autoritário, desde que estas retrocedam e impeçam avanços, mesmo que mínimos e superficiais, como foi a experiência levada a frente pelo partido dos trabalhadores. 

A reação das nossas elites e dos setores médios, esse segmento que tem prestado um enorme desserviço à nação, foi tão violenta, por meio da burocracia judicial, que claramente jogaram no lixo, o próprio texto constitucional e o Estado de direito. Sacrificaram o setor da política, não com o propósito de combater a corrupção, mas sim de criminaliza-lo e assim criar um sentimento de repulsa da povo aos políticos; na outra ponta estimulavam o discurso fácil e falso moralista do Bolsonarismo, a extrema-direita que se encontrava no armário, como única solução contra o suposta causa disso tudo: a esquerda e mais particularmente o PT. 

Ainda no contexto dessa reação, juntaram-se representantes do fundamentalismo religioso, determinados em manter, contra os princípios do iluminismo, a aproximação da política com a religião, na sua versão mais conservadora/reacionária, e não por coincidência, antinacional. A junção concomitante desses fatore somados aos instrumentos modernos de comunicação, constituiu-se em um ambiente fértil para a construção e inicio da mais recente e perigosa aventura da nossa casa grande. Que Deus tenha piedade dessa nação e não permita a consumação dessa insensatez. 

*Professor da rede estadual e membro do diretório municipal do PCdoB 



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

NOS ACOMPANHE NO INSTAGRAM

Acessos

CONTATO DO BLOG

Telefone/Whats: (84) 9 8177-6707 Email: Contato@ofachodegrossos.com Facebook:  O Facho de Grossos © 2015 -2018 - O Facho de Grossos...

ASSISTÊNCIA TÉCNICA EM GROSSOS

ASSISTÊNCIA TÉCNICA EM GROSSOS

COLUNISTAS

COLUNISTAS
EMÍLIO OLIVEIRA
O Facho de Grossos 2014. Tecnologia do Blogger.