sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Por Antonio Renato*
O Brasil é o pais das oportunidades perdidas. Em determinados momentos da nossa História tivemos a chance de romper com os tentáculos econômicos que nos subordina e colocam em risco o próprio Estado Nacional, enquanto fenômeno histórico.

Desgraçadamente, em alguns desses momentos, nosso sofrido povo, sordidamente manipulado, contribuiu para a continuidade dessa triste destinação; e nada é mais emblemático para retratar essa realidade que a atual conjuntura que atravessamos, marcada pela indigência política e econômica dos futuros dirigentes do novo governo. A dedicação à causa da construção do Estado-nação, da sua plena soberania política e econômica, do seu povo mais sofrido, definitivamente, não são requisitos para ocupar a tarefa de se pôr a frente dos desígnios de um pais, no caso do Brasil. 

Uma personagem politica da nossa história recente, particularmente, foi alvo desse triste traço histórico brasileiro: Leonel de Moura Brizola. Esse, verdadeiramente um estadista, um “caudilho revolucionário” cuja presença vibrante e apaixonada, se fez marcante em vários episódios no século passado. 

Brizola é um dos três grandes nomes da corrente política, o trabalhismo, que se formou por ocasião da obra econômica e social de Getúlio Vargas, juntamente com Joao Goulart e sua tentativa de fazer as reformas de base. Reformas, diga-se de passagem, capitalistas. Dos três, Brizola foi o único que não conseguiu chegar a condição de presidente da República, embora tenha tentado em duas ocasiões, em 1989, na primeira eleição direta com o fim do regime militar, e em 1994. 

Ai estar a mais significativa oportunidade jogada fora pelo nosso povo. As gerações futuras haverão de perguntar: como o nosso povo não deu a oportunidade de um homem público, da envergadura de um Leonel Brizola, presidir esse país. 

Brizola é a expressão mais avançada do legado trabalhista, uma evolução dessa corrente, mais à esquerda. Intransigente defensor da economia nacional e de sua soberania, acreditava em um capitalismo popular, com reformas, o que ele chamava de socialismo moreno. Darci Ribeiro, um dos intelectuais que cercavam Brizola, sempre pensou muito na particularidade brasileira, na construção de um modelo brasileiro.

A propósito do trabalhismo, é definitivamente a força política que colocou em pratica o período mais alvissareiro da nossa história. Por meio dela, o pais finalmente ingressava no século XX, defendendo e principalmente pondo em pratica um projeto nacional de desenvolvimento, calcado na industrialização, na independência econômica e na inserção do trabalhador na divisão mais equânime dos recursos vultosos da nação. 

O trabalhismo realizou a maior revolução da história do Brasil, aquela que Tiradentes, Jose Bonifácio, os republicanos, os rebeldes tenentes dos anos 20, os socialistas e todos os outros reformadores sociais e humanistas gostariam de ter feito.

Brizola nunca teve o conforto de uma família de classe média e a certeza de boas escolas. Nasceu em 22 de janeiro de 1922. Ingressa na política em 1946, quando é eleito deputado estadual pelo PTB, partido fundado por Getúlio um ano antes. Nas eleições que se seguiram ao suicídio de Vargas, é eleito deputado federal, cujo mandato é interrompido em decorrência da candidatura e eleição para a prefeitura de Porto Alegre. 

Na campanha para prefeito adotou o slogan: “nenhuma criança sem escola”, projetando aquilo que seria uma de suas preocupações de homem público, a educação, que ao longo da vida se tornou verdadeira obsessão. Como prefeito construiu dezenas de grupos escolares em toda a capital gaúcha, sobretudo nas áreas pobres da cidade.

Em 1958, como resultado do reconhecimento popular, é eleito governador. Apesar de várias obras estruturais no estado, o que vai marcar o mandato de Brizola no governo gaúcho e particularmente sua trajetória nacionalista, de defesa da nossa economia, foi a encampação, dentro de normas legais, da companhia estadual de energia, subsidiaria da Bond & share canadense, ligado ao grupo americano American Foraign Power, que com a light carioca cartelizavam a produção de eletricidade nos maiores centros brasileiros; da mesma forma encampa a Cia. Telefônica Nacional, subsidiaria da internacional telegraph & telefone(ITT). Cria o instituto Gaúcho de Reforma Agraria(IGRA), que distribui mais de 14.000 títulos de terras a pequenos agricultores sem terras. Realiza o maior programa de investimento em educação feito até hoje no RS, por meio da construção de quase 6000 escolas primarias. 

Ainda como governador, Brizola protagonizou uma das mais belas páginas de resistência contra a sanha golpista que de algum tempo havia tomado conta das nossas forças armadas. Foi por ocasião da tentativa de impedir a posse constitucional de Joao Goulart. Era mais uma tentativa de golpe, perpetrada pelas forças armadas, que já havia tentado e sido abortado pelo gesto extremo do presidente Getúlio, em 1954.

Nessas condições Brizola lidera a gloriosa “campanha da legalidade”, que assegurou o cumprimento da constituição. O Rio Grande se uniu em torno de Brizola, pronto para enfrentar os golpistas. Brizola exorta o povo, com uma frase que ficará famosa: “o primeiro tiro não será nosso, mas o segundo com certeza será”. O passo seguinte da sua vida política foi o exilio em consequência do golpe civil-militar que baniu da vida pública do pais os dois herdeiros do trabalhismo, Jango e Brizola.

De volta ao Brasil, depois de 15 anos, dedica-se a refundação da legenda histórica do trabalhismo, O PTB. Nessa pretensão, Brizola é golpeado novamente pela institucionalidade do regime, que entrega o partido a Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio; a partir daí o PTB se insere numa trajetória que vai descaracteriza-lo totalmente, afastá-lo da ideologia trabalhista/nacionalista, transformando-o atualmente numa legenda de oportunistas, sem nenhuma expressão, um rebotalho partidário, formado por um punhado de degenerados, que na verdade desonra o legado de Getúlio. 

Brizola se dedica então a construção de uma legenda que abrigue os verdadeiros trabalhistas. Surge o PDT, e já nas primeiras eleições diretas para governador depois de quase 20 anos, Brizola se elege pelo estado do Rio de Janeiro, sendo o único político brasileiro a governar estados diferentes. 

No governo do RJ, que voltaria a governar por uma segunda vez, projetou e colocou em pratica, com a ajuda de outro grande brasileiro, Darci Ribeiro, o mais audacioso programa educacional já desenvolvido no Brasil: a construção dos CIEPs, apelidados de “Brizolão”. Os CIEPS eram escolas de tempo integral, com assistência médico-sanitária e nutricional, tendo cada um capacidade para mil alunos. 

O exitoso mandato no Rio de janeiro, ademais de sua liderança e condição de herdeiro do trabalhismo, o credenciou para a empreitada mais importante de sua vida, que havia sido interrompida pelo regime militar: a tentativa de chegar a presidência do País. 

Nesse momento, o campo progressista e popular, de esquerda, já registrava, para a infelicidade desse sofrido pais, uma de suas divisões, que tanto marcou a sua história; suas duas principais lideranças, O próprio Brizola e Luiz Inácio “Lula” da Silva, o ex-sindicalista, que havia fundado o PT, com a ajuda de outros setores de uma desorientada esquerda, estavam em campos opostos. 

Não cabe aqui, neste curto espaço, analisar os detalhes dessa situação especifica, suas causas e consequências; as incompreensões embutidas nesse processo, que tem sua gênese na volta do pluripartidarismo, em 1980, que no final das contas redundou num enorme prejuízo ao pais, numa perspectiva deste finalmente engendrar uma força política que de fato encarnasse as características da nossa história e se colocasse como vanguarda da nossa verdadeira emancipação. 

Fazer isso seria necessário entrar na própria história de fundação do partido dos trabalhadores, as influencias teóricas desse episódio, o que demanda uma aprofundamento das diversas correntes da esquerda e o confronto com o já citado trabalhismo e sua ideia da via brasileira para o socialismo. De qualquer forma, deve-se enfatizar que o PT, influenciado pela sociologia paulista, nunca entendeu o fato objetivo, necessário, de enfrentamento da questão econômica e por consequência a inviabilização de uma postura “conciliadora” das nossas elites, que rigorosamente, nunca constituiu uma burguesia nacional. 

O fato é que Brizola, por meio por cento dos votos, não foi ao segundo turno naquela ocasião. E como já foi dito, o povo, manipulado por forças poderosas, tendo à frente a mídia nativa, capitaneada pelo sistema Globo, que por razões obvias tinha pavor das pregações nacionalistas de Brizola, de sua disposição de enfrentar o monopólio das comunicações, que o lulupetismo desconsiderou, lhe negaria essa honrosa missão mais uma vez.

Brizola continuou sua vida pública por alguns anos, até 2004, quando faleceu. Alvo de um verdadeiro linchamento midiático, pois as grandes redes de comunicação entendiam quem de fato era seu verdadeiro inimigo, foi perdendo com os anos, sua densidade eleitoral, mas nunca sua capacidade aguçada de entender a realidade brasileira e tentar de alguma forma influenciá-la no sentido de uma mudança, de encontrar, mesmo dentro de condições tão adversas, um rumo para a nação. 

Nesse momento, em que a mediocridade se tornou regra, de verdadeira demência nacional, fico me perguntando como uma nação pode chegar a essa condição. Em pensar que chegamos a essa situação deprimente, onde impera um irracionalismo irresponsável para com a nação; e que não tivemos um Leonel de Moura Brizola dirigindo os rumos desse tão desafortunado pais, da mesma forma que governou o RS e o RJ, enfrentando interesses poderosos e colocando em pratica ações de valorização prioritária da educação, de reforma agraria, rompendo com a eterna subserviência, o sabujismo que infelizmente tem marcado a vida pública brasileira. 

Pra quem vislumbra um Brasil socialmente mais justo e politicamente capaz de determinar seus próprios rumos, para os humanistas, progressistas e verdadeiros patriotas de uma maneira geral, é profundamente revoltante. 

*Professor da rede estadual e membro do diretório municipal do PCdoB. 






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