domingo, 5 de agosto de 2018
Por: Emílio Oliveira
Nessa semana que terminou ontem, para suavizar um pouco o tenso clima político das Convenções Partidárias que permitirão aos Partidos e Coligações escolherem os seus diversos candidatos para a eleição de outubro próximo e que termina nesse domingo, resolvi ler o LE MONDE Brasil diplomatique de 18 de julho próximo passado, e encontrei em seu Editorial escrito por Sílvio Caccia Bava, baseado no livro Discurso da Servidão Voluntaria de autoria do escritor francês Etienne de Lá Boétia escrito em 1548, essa pérola de texto que, mesmo baseada num livro antigo, descreve bem o que está se passando atualmente não somente no Brasil, mas também em toda a América Latina que tem sido tratada sempre como a cozinha do Império, o que prova que o ser humano evoluiu ainda muito pouco nessa sua velha caminhada histórica. Então resolvi transcrevê-lo NA íntegra e aí está:

“OS SENTIMENTOS COMANDAM”

Explorando o medo e o descontentamento, as elites brasileiras criaram uma grande agenda cujo centro da discussão é a violência, a corrupção e o crime. Essa agenda tem um duplo sentido. Ela cria uma percepção de que estamos todos ameaçados, é intimidatória e dissemina o medo generalizado. E tem uma função estratégica, a de definir os temas do debate público. Não se fala de se enfrentar as desigualdades sociais, reduzir os juros bancários, cobrar impostos dos ricos ou estancar a desindustrialização do país que perde competitividade a olhos vistos. Fala-se exaustivamente da luta da polícia contra os bandidos e também da corrupção somente dos políticos e não de toda a sociedade organizada.

O mundo é desenhado como uma luta ferrenha entre mocinhos e bandidos, com grande apoio da indústria cultural que cultua os super-heróis e a velha luta entre o bem e o mal. 

É um processo de infantilização da sociedade que simplifica os dilemas da vida, oculta as questões sociais e desloca os temas de discussão para o que à maioria não possa perceber a realidade. Um dos efeitos dessa estratégia é criminalizar os pobres e marginalizados, demonizar os imigrantes, intimidar e reprimir os movimentos sociais, agredir religiões distintas, demonizar os políticos corruptos sem enfocar também seus corruptores e, ultimamente, atacar o PT e seus aliados e ao próprio Lula. Ou seja, quem detém o poder da comunicação constrói a narrativa e identifica quem são os mocinhos e os bandidos.

A população se sente acuada, e os pobres em particular são continuamente ameaçados pelo braço violento do Estado, pelas polícias, que se utilizam prodigamente de sua licença para matar. É sob o domínio do terror que se bloqueia a agenda das maiorias, a expressão de suas necessidades, sua manifestação coletiva enquanto cidadãos e cidadãs. Já dizia Étienne de La Boétie, em 1948, que essa situação só perdura enquanto a população se curvar e se submeter à servidão voluntária. A servidão voluntária poder ser compreendida como um ato de submissão, um reconhecimento da superioridade do outro, a quem se deve obediência. Ela é, na verdade, uma construção simbólica que destitui todo cidadão e cidadã de sua humanidade, de seus direitos e de sua autonomia.

A disputa por um novo lugar na sociedade, por uma vida digna, pelo respeito e pela justiça é um ato coletivo de ruptura com a servidão voluntaria. É uma ruptura com os valores dominantes que se dá no embate, no conflito, assumindo riscos e enfrentando os poderes instituídos. É a afirmação de uma nova identidade, fundada em novos valores, em uma nova concepção de viver em sociedade. A coragem de romper é celebrada em todas as épocas da história – um sentimento que se sobrepõe ao do medo que leva à servidão. É assim que se dão as grandes transformações, quando as maiorias recusam o lugar que lhes é atribuído pela elites e tornam-se protagonistas de sua própria história.

A guerra da água, uma mobilização cidadã ocorrida em 2000, em Cochabamba, na Bolívia, contra a gestão privatizada da água em sua cidade, é um dos melhores exemplos da construção de novos valores. A população indignada e mobilizada expulsou a empresa multinacional que passara a gerir o sistema público de fornecimento de água e retomou a água como um bem público que era e continua sendo.

Com essa vitória, a coragem aumentou em todo o continente, e a população percebeu que pode romper com a servidão voluntária, que pode vencer em seus justos pleitos. E foi o que aconteceu em numerosos países do continente na primeira década do século XXI. Os movimentos sociais cresceram e eleições levaram aos governos representantes dos interesses populares, governos que passaram a defender uma nova agenda: o enfrentamento das desigualdades e da pobreza endêmica, a soberania nacional, a participação e o respeito aos direitos humanos. “A esperança venceu o medo”, dizia o PT quando Lula se elegeu em 2002.

A partir dessas vitorias e como uma forma de enfrenta-las, as elites promoveram uma inversão da agenda – na qual o medo e a submissão são centrais – para a reconstrução da servidão voluntária. A estratégia se deu por meio da utilização da mídia e da atuação militante de um crescente número de organizações financiddas por grandes empresas nacionais e internacionais que abraçaram o ideário neoliberal e a defesa dos interesses destas em detrimento do interesse das maiorias. Em termos gramscianos, é a disputa pela hegemonia na sociedade, pelos corações e mentes de cidadãos e cidadãs. É a disputa pra formar novas maiorias

Ainda não conseguiram formar, de fato, uma maioria, mas há uma parcela significativa de nossa população que aderiu a essa visão de uma sociedade conflagrada, violenta, sem respeito à ordem, dominada por milícias e traficantes, em que o crime e a corrupção imperam e que precisam ser governada e combatida por mão forte. Abdicam de sua soberania como cidadãos em nome de uma suposta paz a ser conquistada pelas armas. Aceitam a execução sumaria de jovens pobres e pretos nas periferias das grandes e pequenas cidades. Concordam abrir mão de direitos em nome de uma falsa segurança. E, por último, demonizam seus opositores, acusando os que defendem os direitos humanos de defensores de criminosos e bandidos. 

Neste cenário, não há esperança e nem tampouco um futuro de mudança boa para as maiorias excluídas. Há apenas a administração violenta do presente que se prolonga indefinidamente, o que nos leva a criar uma nova realidade ancorada na esperança de um país onde se respeitem os direitos humanos e a riqueza gerada com o trabalho de todos seja mais bem distribuída, precisamos ter a coragem de confrontar com a nossa própria agenda, essa agenda excludente que aí está e que é baseada apenas numa narrativa conservadora, e contrapor a ela um novo projeto de sociedade, na qual a solidariedade e a cooperação sejam suas principais marcas de identidade.

Emílio.
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