domingo, 22 de julho de 2018
Por: Emílio Oliveira
Essa semana eu estive ocupado resolvendo problemas particulares que tomou todo o meu tempo e não deu para escrever dando a minha própria opinião como costumeiramente faço sobre assuntos que despertam a minha atenção, os quais geralmente são publicados nos dois principais Blogs da cidade, todos os domingos. Por isso, vou transcrever as principais ideias desenvolvidas pelo grande sociólogo e escritor brasileiro Jessé Souza no seu último título entre os vinte e sete que já escreveu sobre as mazelas idealizadas, construídas e mantidas pela nossa tão malfadada elite. Senão vejamos:

“A visão do brasileiro como vira-lata da história e lixo do mundo, que retira a autoestima e autoconfiança de todo um povo só se ternou a ideia hegemônica entre nós porque se traduz em dinheiro e hegemonia política para a ínfima elite que nos domina há séculos”.

“O que separa o americano do brasileiro é que o primeiro legaliza a corrupção de modo profissional, deixando para os amadores do Brasil, expedientes como esconder dinheiro ilegal na cueca. Outra distinção é que o americano, não atenta contra a própria economia, como fez a Lava Jato”.

“Se antes a corrupção como herança maldita era o principal, temos agora que pensar a nossa desigualdade e suas mazelas como a resultante de um processo histórico que impossibilitou aprendizados sociais e políticos decisivos, sem qualquer relaçao com a sociologia do vira-lata”.

“A mentira culturalista, supostamente científica, transforma os povos colonizados em samurais que enfiam a própria espada em si mesmos. A mentira culturalista diz que os americanos são diligentes, honestos e democráticos, e os outros são particularistas, corruptos e autoritários”. 

“Não há qualquer diferença essencial acerca do modo como se estruturam as classes sociais em luta, por exemplo, no Brasil ou na Alemanha. Tanto no Brasil quanto na Alemanha ou na França, a naturalização da desigualdade é possível pela sutil violência da ideologia da meritocracia”.

“Criam-se falsos problemas e falsas prioridades, como cruzadas moralistas contra a corrupção, que passam a ocupar o lugar da atenção às questões básicas de distribuição desigual em todas as dimensões. Chamar a atenção para problemas aparentes nos cega em relação a conflitos reais”.

“A produção da exclusão e marginalidade em sociedades como a brasileira não se distingue, qualitativamente, do mesmo fenômeno em sociedades como os Estados Unidos e a Alemanha. Essas classes de desclassificados sociais são construídas por motivos modernos e semelhantes em qualquer lugar”.

A IDEOLOGIA INVISIVEL DO CAPITALISMO

“Platão foi o sistematizador da ideia fundamental para a concepção moral do Ocidente: a ideia de que o eu é visto como ameaçado pelo desejo (em si insaciável), devendo, portanto, ser subordinado e regido pela razão”.

“A nova dignidade designa a possibilidade de igualdade tornada eficaz, por exemplo, nos direitos individuais potencialmente universalizáveis. Em vez da honra pré-moderna, que pressupõe distinção e privilegio, a dignidade pressupõe um reconhecimento universal entre iguais”. 

Enquanto nas sociedades hierárquicas o princípio da honra é fundamental, a noção moderna implica o uso igualitário e universal que confere dignidade especifica a todo o ser humano e cidadão. Apenas alguns têm honra, mas todos possuem dignidade”.

PIERRE BOURDIEU E A RECONSTRUÇÃO DA TEORIA DA CRÍTICA 

“Os nossos corpos são, na sua forma, dimensão e apresentação, a mais tangível manifestação social de nós mesmos. E os nossos hábitos de consumo moldam nossa cultura. É como base nesses sinais visíveis que classificamos as pessoas e os grupos sociais e lhes atribuímos prestígio ou desprezo”.

“Foi apenas depois da Segunda Guerra Mundial que a importância do saber passou a ser percebida em todas as suas virtualidades. É a partir dessa época que temos uma onda de análises acerca dos trabalhadores qualificados como uma nova classe entre proprietários e trabalhadores manuais”.

“Possuir um castelo não é apenas uma questão de dinheiro. Ao contrário, essa aquisição quase sempre está associada a uma forma de estar em contato com a vida aristocrática e todas as suas funções e privilégios específicos”.

“A classe trabalhadora é obrigada a fazer da necessidade – ou seja, da dependência inexorável a um padrão mínimo de consumo e de estilo de vida ditado pela privação e ausência de meios – uma virtude. Uma virtude que se define como adaptação à realidade”. Ou seja, ela faz tudo e não tem direito a quase nada e os que não fazem quase nada têm direito a tudo. Essa ultima frase aí que não tem o aspas é de minha própria lavra.

O DIFÍCIL CASAMENTO ENTRE MORALIDADE E PODER

“O reconhecimento da diferença – essa conquista cultural do século XIX, já que antes as pessoas não eram percebidas como possivelmente tão distintas entre si – implica poder pleitear uma reivindicação de autenticidade”.

“A partir do fim do século XVIII, as pessoas percebem que as diferenças entre os seres humanos podem ser significativas o bastante para legitimar um modo próprio de ser. A partir da segunda metade do século XX, ganham força demandas em favor do respeito a diferenças. O movimento feminista foi o mais bem-sucedido”.

“Apesar do enorme avanço social das sociedades do bem-estar na superação dos conflitos sociais mais virulentos, eu não estou convencido de que os patamares de igualdade efetiva nessas sociedades sejam os desejáveis”.

“O meu interesse é tentar chegar ao fundamento da questão da desigualdade e de como ela poder ser legitimada e tornada invisível pela ideologia espontânea do capitalismo tardio, seja ele central ou periférico”.

A MODERNIZAÇÃO SELETIVA BRASILEIRA E A SINGULARIDADE DA NOVA PERIFERIA

“Uma ordem moral estipula as obrigações e os direitos que configuram e organizam nossa relação com os outros. Obrigações políticas, por exemplo, são, nesse sentido, uma extensão ou aplicação desses vínculos morais mais amplos e mais fundamentais”.

“Não somente a classe superior, a burguesia, mas também os setores populares e subalternos lograram articular sua visão peculiar a partir de heranças religiosas e culturais compartilhadas”.

“A surpresa maior é não encontrar, na imensa maioria dos nossos melhores intérpretes e pensadores sociais, o tema da escravidão como o fio condutor da análise. Se não estou sendo injusto, o tema da escravidão só atinge esse status na obra de Joaquim Nabuco e do próprio Gilberto Freyre”. 

“O português é a figura do contemporizador por excelência, e nisso se diferencia do colonizador espanhol e especialmente, do anglo-saxão nas Américas. É o português o portador da característica mais importante da vida colonial brasileira: o homem “sem ideais absolutos nem preconceitos inflexíveis””.

“Em Casa-grande e senzala, fundamental é o sistema econômico de produção escravocrata e monocultor e a organização social patriarcal. Esses são pontos que aproximam todas as formas de sociedades escravocratas nas Américas, seja nos Estados Unidos, Brasil ou Cuba”.

“A sociedade cultural e racialmente híbrida de que nos fala Gilberto Freyre não significa igualdade entre as culturas e raças. Houve domínio e subordinação sistemática. Melhor, ou pior, no caso, houve perversão do domíNio no conceito-limite do sadismo”. 

SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO PODER PESSOAL: O DEPENDENTE FORMALMENTE LIVRE

“Seres humanos a rigor dispensáveis e que conseguem sobreviver nas ocupações marginais da ordem produtiva. Esse tipo, tal como o do escravo, se espalhou por todo o território nacional, e representava, em meados do século XIX, cerca de 2/3 da população nacional”.

“Para o senhor de terras, a política era o campo por excelência do exercício da lealdade e da subserviência. Ainda hoje, no Nordeste brasileiro, o único crime que não merece perdão é a ingratidão, o crime capital do poder pessoal”.

DO PODER PESSOAL AO PODER IMPESSOAL 

“A limitação do liberalismo no Brasil fica clara nos contornos amesquinhados do compromisso final entre as elites, que torna a abolição uma “revolução social de brancos para brancos”, inaugurando a imigração do branco europeu e provocando um abandono secular de uma ralé despreparada para enfrentar as novas condições socioeconômicas”.

“A desvalorização da figura da mulher assumia formas extremas. A figura da mulher era percebida como o contrário especular da do homem, como diz Gilberto Freyre, “sexo frágil e belo, mais frágil do que belo”, de modo a diferenciá-la da agilidade e do vigor masculinos”.

“O Estado e, em menor grau, as atividades ligadas ao comercio urbano minam o poder pessoal pelo alto, penetrando na própria casa do senhor, roubando-lhe os filhos e transformando-os e seu rivais”.

“Nos anos 1930, sendo apropriado por uma elite tradicional oligárquiaca, por que o Estado irá propor um projeto modernizador? Isso se explica dado que, no contexto da heterogênea aliança liberal que ascende ao poder, os pontos convergentes estavam nas demandas por diversificação do aparato produtivo e pela ampliação da participação política”.

A SUBCIDADANIA COMO SIGULARIDADE BRASILEIRA – PROCESSO DE MODERNIZAÇÃO PERIFÉRICA E A CONSTITUIÇÃO DE UMA RALÉ ESTRUTURAL

“O Estado autoritário e modernizador, que se consolida a partir de 1930, não inicia o processo de modernização brasileiro, que começou já em 1808. Mas o põe em outro patamar. A partir dele, a modernização brasileira passa a ser comandada não mais pelo surto urbanizador e comercial, mas pela industrialização”. 

“Na fase imediatamente posterior à abolição, para o negro, sem a oportunidade de classificação social burguesa ou proletária, restavam as franjas marginais do sistema como forma de preservar a dignidade de homem livre: o mergulho na escória proletária, no ócio dissimulado”.

“É o abandono secular do negro e do dependente de qualquer cor à própria sorte a causa óbvia de sua inadaptação. Foi esse abandono que criou condições perversas de eternização de uma situação precária, que constrange esses grupos a uma vida marginal e humilhante”.

A IDEOLOGIA ESPONTÂNEA DO CAPITALISMO TARDIO E A CONSTRUÇAO SOCIAL DA DESIGUALDADE

“O abismo brasileiro se intensifica a partir de 1930 com o início do processo de modernização em grande escala. A linha divisória passa a ser traçada entre os setores que conseguiram se adaptar às novas demandas produtivas e sociais e os setores que, por seu abandono, ficaram marginalizados”.

“Nenhum brasileiro europeizado de classe média confessaria que considera seus compatriotas das classes baixas “subgente”. Grande parte dessas pessoas vota em partidos de esquerda e participa de campanhas contra a fome e coisas do gênero. A dimensão aqui é subliminar e implícita”.

“Em sociedades periféricas como a brasileira, o habitus precário – que implica a existência de redes invisíveis e objetivas que desqualificam os indivíduos e grupos sociais precarizados como subprodutores e subcidadãos – é um fenômeno de massa”.

A DESIGUALDADE NAS SOCIEDADES PERIFÉRICAS

“Uma ferida profunda parece a aceitação da situação de precariedade como legítima e até merecida e justa, fechando o circulo do que gostaria de chamar de naturalização da desigualdade, mesmo de uma desigualdade abissal como a da sociedade brasileira”.

“O europeu e a europeidade, percebidos como referente empírico de uma hierarquia valorativa peculiar, que pode, por exemplo, ser personificada por um mulato, vai se transformar na linha divisória que separa gente de não gente e cidadão de subcidadão”. 

“Segundo Gilberto Freyre, nossa singularidade passa a ser a propensão para o encontro cultural, a síntese das diferenças, para a unidade na multiplicidade. É por isso que somos únicos e especiais no mundo. Devemos, portanto, ter orgulho e não vergonha disso”.

A CRIMINALIDADE BRASILERIA HOJE, A MEU VER, É O FRUTO DE TODAS ESSAS INJUSTIÇAS

Esse último livro do grande sociólogo Jessé Souza, mostra a ferro e fogo a quem ainda não colocou no lugar do seu coração uma pedra de granito, a mais que horripilenta desigualdade da sociedade brasileira sem que a nossa perversa e antipatriótica elite econômica e política que na expressão de sua maioria a representa, sequer a coloque na perversa pauta de suas preocupações, mesmo diante de tão vergonhosas e imorais distorções para os olhos dos povos mais civilizados do planeta Terra. 

Como o IBGE informou recentemente, no Brasil, apenas cinco cidadãos plutocratas ou ricos desse tão injusto país, possuem um patrimônio que equivale ao que possuem cem milhões de outros brasileiros pobres. Isso é a mais escabrosa e calamitosa vergonha que somente acontece aqui? Todavia, nunca se viu ou ouviu nas telinhas da TV brasileira, ser ventilado qualquer assunto a esse respeito.

Por isso é com tristeza que vejo os nossos órgãos de comunicação de massa, que sequer parecem que são nossos, nunca informarem a verdade e o que realmente interessa ao nosso povo que é tão pouco lido até porque nunca ganha dinheiro para comprá-los e, quando conseguem um pouco, outras necessidades mais carentes se fazem presentes nas péssimas condições em que sobrevivem. 

Apesar dos meios de comunicação de massa nesse país ser constitucionalmente uma concessão do estado para verdadeiramente informar aos cidadãos, as informações são geralmente distorcidas e mostradas a um povo que não lhe foi dada a mínima condição de filtrá-las, apenas o que maldosamente interessa aos donos do poder por quem foram cooptados.

Eles nunca mostram que a criminalidade que está tirando a paz e o sossego de todos os brasileiros é a contrapartida da desumana distribuição de renda desse país. Que o crime organizado parcialmente mancomunado como alguns poderosos dos diversos segmentos do poder formal, coopta adolescentes das periferias e favelas das cidades brasileiras para venderem drogas para eles porque esses garotos ao chegarem à idade de trabalhar não somente não encontram no mercado formal de trabalho empregos até porque não tiveram condições de se capacitarem devidamente para esse fim e, os poucos que conseguem, vão ganhar salários miseráveis que mal dá para sobreviverem. 

Então, chegam os grandes e verdadeiros traficantes ou seus prepostos que geralmente residem nos condomínios de luxo e com raras exceções são punidos, oferecem até 150 reais por dia de salário para eles venderem suas drogas pelas ruas das cidades. Então, compram logo uma Iphone, um tênis e roupas de marcas que a televisão está mostrando a eles como sonho de consumo, uma moto e começam a distribuir drogas pelas ruas das cidades até que ou são mortos por tribos rivais ou apanhados pela polícia que os entrega ao judiciário, que por sua vez os condena, e que, ao entrarem no primeiro dia num presidio desses qualquer, o PCC ou outro comando criminoso diz a eles logo na entrada: ou você se filia a nossa facção criminosa ou vai ser seviciado ainda essa noite ou morto amanhã ou depois. 

Então um garoto que ontem era uma criança e que por causa das condições sociais adversas a ele impostas por uma sociedade desigual (sem instrução, educação e capacitação) cai na brutal criminalidade e as prisões que teoricamente deviam ser centros de recuperação de criminosos passaram a ser no Brasil, verdadeiras universidades do crime, onde os chefes do crime organizado que estão lá dentro e que são os professores desses garotos, comandam de dentro delas as ações a serem efetivadas nas cidades brasileiras nas barbas de nossas autoridades quase todas desmoralizadas e sem forças para barrarem a violência desses perigosos criminosos. 

Se por acaso aquele garoto tiver jogo de cintura o suficiente para conseguir sair da prisão sem se filiar a nenhuma facção criminosa, e isso é raro mais acontece, ninguém do lado de cá lhe oferece uma oportunidade para se reintegrar na sociedade produtiva mesmo que mais que concentrativa de renda em que vivemos. Talvez até essa minha argumentação seja motivo para os desavisados desse país que hoje são muitos a acharem que eu estou protegendo bandidos. A eles gostaria apenas de dizer o seguinte: nenhum ser humano nasce bandido. Geralmente quem constrói o bandido é a própria sociedade aonde se encontra inserido.

A sorte do Brasil e mais ainda de sua elite, é que essas delinquentes pessoas são treinadas dentro dos presídios apenas para assaltarem, roubarem, estuprarem e matarem pessoas geralmente das mesmas condições sociais de onde elas provieram. Pior seria se eles estivessem lá sendo politizados da real situação deles no contexto da nação e da sociedade capitalista do Brasil que os colocaram naquela situação, porque aí eles certamente não iriam mais assaltar e matar pobres como eles, mas sim, planejar uma revolução sangrenta onde somente iria perder a nossa tão maquiavélica “elite do atraso” como a batizou Jessé Souza em seu penúltimo livro que vem deixando a nossa elite preocupadíssima e com as barbas de molho.

Emílio.

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