domingo, 24 de junho de 2018
Por: Emílio Oliveira
O MBL – Movimento Brasil Livre e que eu, pessoalmente, prefiro chamar de Movimento Brasil Lacaio, é uma entidade sócio–política de extrema-direita que muitos afirmam que está sendo estimulada nos países latino-americanos e financiada por plutocratas americanos. Ela tem como finalidade básica, diminuir drasticamente a intervenção econômica do estado na economia de tal forma que - quase todos os setores estratégicos da economia dos países periféricos ao império global -, sejam entregues ao mercado e que, segundo eles, é mais que eficiente e vai nos libertar da ação nefasta tanto do nosso atual estado mastodôntico, quanto de seus políticos corruptos. 

Olhando para o semblante deles a gente percebe logo que são garotos de boa vida, todos vitaminados, bem nutridos, alguns até descendentes da classe média mais reacionária brasileira e também mais manipulada pela elite plutocrata que, segundo o sociólogo Jessé Souza, ex-diretor do IPEA, pertencem à nossa conservadora classe média protofascista. Eles são aqueles que foram para as ruas vestidos de verde e amarelo pedir o impeachment da Dilma por causa das pedaladas fiscais que todos os outros governos também fizeram, inclusive os atuais golpistas, mas quando as malas de dinheiro apareceram nos apartamentos alugados unicamente para esse fim foram estampados nos noticiários da grande mídia, não se viu nenhum deles batendo panelas.

Será que aquela gente estava mesmo interessada somente em moralizar de verdade o país e combater a corrupção ou em simplesmente derrubar a Dilma que foi eleita pela maioria, mas que pelo fato de ela e o Lula terem dado prioridade e também um pouco mais de protagonismo aos pobres fazendo-os disputar com ela as vagas nos aviões comerciais, nas universidades com as quotas e até mesmo nos empregos formais mais bem remunerados fato nunca ocorrido antes em nossa história, ou mais como forma maquiavélica de salvaguardar seus interesses maiores, coisa que, em sua atrasada visão, não poderia ter acontecido?

A demonstração de ódio dessa classe por Lula, Dilma e o que representam é tamanha que dá inclusive para se desconfiar de que não foi somente a moralidade do país que os fez ir para as ruas pedindo o pescoço da Dilma e posteriormente a “justa prisão do Lula” como um dos maiores ladrões desse país, quando eles próprios sabem que se o Lula roubou como eles dizem, foi um dos que menos roubou nesse país. Eu já tenho muitos anos na estrada da vida e confesso que nunca vi um acirramento da luta de classes tão grande em nosso país como agora - mesmo a gente sabendo que ela sempre existiu -, mas que até bem pouco tempo atrás, ela existia de forma disfarçada e quase invisível. 

A meu ver, acho que alguns desses falantes rapazes do MBL são totalmente conscientes do que estão fazendo contra o povo trabalhador e contra o seu próprio país, embora que a maioria não tenha plena consciência de suas crenças e atos e por isso mesmo pensam inclusive até que estão ajudando, quando estão na verdade é se alinhando com forças politicas retrógradas que simplesmente não querem e também não aceitam um protagonismo global do nosso país, relegando-o sempre a mero fornecedor de commodities ou matérias primas sem valor agregado como: soja, milho, carnes, fruticultura irrigada, minério de ferro e petróleo bruto. 

Os que estão infelizmente sendo usados acham que defendendo como orgulhosamente fazem a introdução quase que total do mercado na economia do nosso país vai permitir beneficiar a todos indistintamente, gerar mais empregos e renda e, finalmente, tirar o Brasil do fundo do poço onde se encontra atualmente. Eles são partidários das ideias econômicas dos economistas Mises e Hayek da escola Austríaca de Economia e acreditam que se toda a economia for entregue as forças competitivas do mercado, a economia se encaminhará para o equilíbrio e tudo dará certo apenas numa questão de tempo. 

Eles são ainda tão inocentes que acham que o mercado é puro e isento de falcatruas e de corrupção e que pela livre competição das forças da oferta e da procura toda a economia se equilibrará e a bonança se estabelecerá tanto para os proprietários dos meios de produção capitalista que são os patrões, quanto também para os trabalhadores que são os assalariados em geral. Que sonho bonito, mas ao mesmo tempo tão ingênuo! Se é que esse modelo realmente existiu na prática eu não sei aonde especificamente, pois em tempo nenhum o mercado deixado ao seu bel prazer conteve-se na sua ânsia de lucratividade ao ponto de permitir uma competição verdadeira em qualquer setor da economia de qualquer outro país do planeta Terra. 

Quando o curso de economia era de apenas quatro anos eu estudei economia durante três anos e somente não me formei nessa área porque derivei para engenharia, mas aprendi muita coisa e inclusive hoje ainda tenho mais livros os quais todos lidos de economia, do que muitos economistas formados que eu conheço. E até confesso que nessa época de minha juventude estudiosa também me encantei com as ideias econômicas do Ludwig Von Mises e do Friedrich Hayek da escola Austríaca de Economia, como também com o marxismo que a meu ver ainda é o discurso mais lúcido sobre o sistema capitalista e até mesmo com o Adam Smith que primeiramente definiu o capitalismo em seu famoso livro Riqueza das Nações, publicado em 1776. 

Só que a gente vai vivendo, aprendendo e o tempo vai mostrando que os problemas econômicos e sociais de toda a humanidade não estão alojados apenas nos sistemas capitalista ou de mercado ou no socialista e de economia planificada não, mas, simplesmente, na cabeça dos homens. É ali onde se deve realmente procurar às aberrações e distorções sofridas por todos os sistemas econômicos ate aqui formulados pelas diversas teorias concebidas pelas cabeças humanas mais pensantes, fato esse que tem originado toda a desolação, sofrimentos e guerras para a humanidade. 

Acreditar que o atual capitalismo que inclusive foi diretamente responsabilizado pelas duas guerras mundiais e vários outros conflitos de menor dimensão por mais mercados, possa se contentar com uma taxa de lucro não tão execrável e que forneça razoabilidade e competitividade a todo o sistema apenas esperando pelas forças do Laissez-faire como dizem os franceses é uma santa ingenuidade, da mesma forma que acreditar que a economia planificada no socialismo pode criar um sistema justo e com liberdade para todos os indivíduos de uma sociedade. 

Já o sistema socialista que pregava e ainda prega o crescimento do trabalhador como um verdadeiro ser humano, se materializou como uma feroz ditadura e numa ditadura, como todos sabem, um soldado pensa que é um general e um general que é um Deus, e advém daí justamente todas as brutalidades tão conhecidas de todos nós, como a ausência de liberdade que foi um atributo tão importante que o próprio Deus na sua onipotência deu ao homem para ele poder construir bem ou mau o seu próprio destino. Vale salientar aqui que no capitalismo também houve e ainda há ditaduras, tão ferozes quanto as do socialismo.

Na verdade, esses dois sistemas econômicos e políticos são duas bonitas e utópicas formulações teóricas que infelizmente a experiência humana comprovou que não funciona conforme a teoria porque o problema não está nos sistemas formulados, mas, como já dito antes, na cabeça dos homens. E o pior é que, à medida que o tempo passa, as coisas se complicam cada vez mais. Senão vejamos: o capitalismo vem de forma injusta e alarmante concentrando renda em todos os países onde esse sistema se impôs e funciona, ao ponto de hoje praticamente o destino de quase todo mundo se encontrar nas mãos de seis decrépitos plutocratas e suas famílias.

Eles são os donos absolutos das fábricas de automóveis, aviões, foguetes, satélites, armas de guerra, munição, hospitais, laboratórios de medicamentos, agroindústria, fertilizantes, petróleo e gás, bancos privados e públicos, indústrias de alimentos e divertimentos, cinema, televisão, mídias em geral e inclusive até dos poderes das repúblicas e das monarquias, na medida em que, com a força do dinheiro que é muito, conseguiram cooptar todos os fronts de poder em todos os países do planeta Terra.

Agora, a pergunta mais importante. Quem são esses senhores? Ora bolas, eles são simplesmente o próprio “MERCADO” que alguns inocentes úteis do MBL – Movimento do Brasil Lacaio quer nos fazer acreditar que o capitalista voraz como é por lucros e mais lucros se deixará guiar e levar apenas pelas forças magnéticas da mão livre desse famigerado mercado descrito por Adam Smith, deixando toda a economia global equilibrada e promovendo a tão sonhada riqueza e justiça social para todas as sociedades onde se estabelecerem.

Lá nos EUA que é o país que ainda hoje mais representa o sistema capitalista internacional, se não fosse o estado americano altamente empoderado com o dólar que é a moeda de cunho forçado no mundo e por trás de todo aquele processo produtivo em função da corrida aeroespacial, da indústria bélica, farmacêutica, etc, sempre em conjunção com as universidades de ponta que lhes fornecem às respostas tecnológicas as demandas agregadas do estado, certamente que os EUA não tinham conseguido o protagonismo global que tão ativamente ainda desfrutam. 

Mas aqui no terceiro mundo, eles simplesmente pregam como solução para nossas economias o já surrado e sem sentido neoliberalismo que deixou econômica e politicamente toda a velha Europa em pandarecos e inclusive prejudicou até mesmo os EUA, na medida em que todas as suas principais fábricas que pagavam em média cinco mil dólares de salário a um trabalhador, mas que em função da busca desenfreada pela competitividade, correram todas e se estabeleceram na China onde a maioria ganha apenas 250 dólares.

Se a gente for analisar a quem o neoliberalismo fez bem se observa que somente a economia da China que atraiu para ela com salários iniciais de 100 dólares e grande quantidade de mão de obra qualificada as grandes corporações fabris americanas que pagavam em média seis mil dólares aos seus trabalhadores formais. E foi justamente esse fenômeno que possibilitou a vitória do Donald Trump sobre a Hillary Clinton, porque durante a campanha ele prometeu que se fosse eleito presidente, faria voltar às fabricas para o EUA e retornarem os empregos e os melhores salários novamente.

Só que isso era apenas retorica ou promessa vã de campanha para ganhar a eleição e lá chegando e percebendo que é praticamente impossível conseguir esse feito, agora mudou completamente a conversa e está dizendo que vai taxar todos os produtos chineses nos EUA, provando que o capitalismo deles é apenas de araque e a competição somente é defendida ferrenhamente por eles quando têm mais capacidade competitiva que os outros países no comerceio global.

Ou seja, se um país periférico como o nosso que por desigualdade tecnológica, escala e financiamento não tem condições de competir com os produtos americanos, eles suscitam na publicidade a importância da competição para o sistema; mas, se o nosso país têm mais competitividade que eles em determinados itens produzidos como, por exemplo, o nosso ferro que é mais competitivo que o deles, nesses casos, eles cinicamente apelam para a taxação alfandegaria. Esse é o verdadeiro sistema capitalista meninos do MBL. O resto é somente o que vem provar que o problema não está nos sistemas, mas na cabeça de quem os conduz.

O sistema que o MBL – Movimento Brasil Livre que simplesmente chamo de Lacaio quer implantar aqui e alhures é simplesmente impossível porque o próprio capitalismo selvagem que nos domina não vai permitir utilizando-se do monopólio, oligopólio e cartel que a competição real e verdadeira que vocês aspiram e que seria a ideal se realmente os donoso do mundo deixassem acontecer e as empresas do sistema capitalista tivessem realmente condições de competir sem interferências capitalistas estranhas à pregação.

Então, ante o exposto, pode-se até conceber que: Mises, Hayek, Adam Smith, Marx, Polanyi, Keines e tantos outros grandes economistas pensantes que de forma brilhante se aventuraram a idealizar modelos de desenvolvimento econômico e social que trouxessem paz, equilíbrio e estabilidade as sociedades de suas respectivas épocas, todos eles, em maior ou menor extensão, fizeram a sua parte contribuindo para o progresso de toda a humanidade. O grande problema é que as verdadeiras distorções nunca estiveram e não estão nos sistemas criados por todos esses expoentes, mais sim, unicamente na cabeça do homem que assume o poder e que é a única peça que verdadeiramente precisa ser consertada. 

Por isso defendo que - ao invés de um estado mínimo que somente interessa ao “mercado financeiro” que hoje é o corruptor maior tanto dos políticos quanto do próprio estado em todos os níveis de organização -, um estado verdadeiramente empoderado que num prazo médio consiga se desvincular dessa dependência financeira interna e externa, e que possa enfim liderar o entendimento e a união de quem produz (empresários) com quem trabalha (trabalhadores) mediatizados pela universidade que através de pesquisas dirigidas colocará na mesa as respostas para a sustentabilidade de um indispensável projeto nacional de desenvolvimento e contra os rentistas que estão impiedosamente matando a economia desse país. 

Emílio.
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