domingo, 17 de dezembro de 2017
Há umas três semanas atrás eu falei num desses meus artigos dominicais que havia comprado o livro do sociólogo Jessé Souza – A ELITE DO ATRASO – DA ESCRAVIDÃO À LAVA JATO, lançado pela Editora LEYA. Dei inicialmente umas pequenas dicas do que ali se trataria e agora, após concluir a sua leitura, vou tentar repassar para vocês de uma forma muito resumida é claro, as principais conclusões a que chegou Jessé Souza em sua extensa pesquisa para escrevê-lo.

O RACISMO DE NOSSOS INTELECTUAIS: O BRASILEIRO COMO VIRA LATA

Valendo-se como ponto básico de partida o livro Casa Grande e Senzala do grande Gilberto Freyre do qual faz parcialmente algumas discordâncias, contesta frontalmente e com argumentos mais que plausíveis a visão conservadora de Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda e de “Os Donos do Poder” de Raimundo Faoro, da visão do Estado corrupto e patrimonial a qual Fernando Henrique Cardoso se alinhou à figura do “jeitinho brasileiro” interpretada por Roberto DaMatta que, segundo o próprio Jessé, foi a leitura desses até hoje considerados como grandes autores nacionais que consolidaram a síndrome de vira-lata do brasileiro.

De Sérgio Buarque de Holanda – ele contesta o fato da afirmação de que parte significativa do nosso patrimônio cultural foi herdado de Portugal com a chegada dos descobridores portugueses, depois em menos percentual dos nossos indolentes índios, e, por fim, dos escravos africanos que na empreitada da colonização para aqui foram trazidos. Segundo Sergio Buarque de Holanda, foi nesse processo gestatório de gentes que o brasileiro foi forjado, dando origem, portanto, ao homem cordial brasileiro, caracterizando nessa concepção conservadora e racista que o brasileiro é bonzinho, sorridente, atencioso, não violento, mas também indolente, preguiçoso, desonesto e capaz de assumir qualquer atitude para se dá bem. 

, violências, injustiças e total falta de sensibilidade humana desses senhores, que o Brasil culturalmente foi plasmado. Torna-A tese de Jessé é que o Brasil, diferentemente de Portugal que tinha as suas próprias leis e não adotava lá a escravidão, forjou-se baseado na vontade quase que soberana imposta pelos senhores de terras que aqui implantaram um sistema escravocrata totalmente cruel e sem nenhum controle das autoridades portuguesas que se portavam de forma indiferente e foi justamente nesse caldo de brutalidadesse claro, porém, que alguns costumes e crenças, vieram de Portugal e da África e aqui se sincretizaram com os dos indigenas, mas a forma como o Brasil foi formado e administrado desde o período colonial até a independência, não tem nada a ver com Portugal.

E é por isso que Jessé contesta a versão conservadora e fictícia criada por Sérgio Buarque de Holanda de que seu “homem cordial”, mais material que espiritual, ou seja, mais bicho que gente, não herdou a sua carga cultural de Portugal que nem escravista era e nem tampouco suas leis e costumes se impuseram aqui, mas sim, da forma autoritária e violenta como os antigos senhores de terras que eram tratados como semideuses administravam os seus grandes feudos, aí sim, doados pela coroa portuguesa. 

Aqui se estabeleceu um novo experimento civilizatório com a miscigenação de raças e totalmente diferente do de Portugal, predominando não as leis portuguesas, mas a violência da exploração escravista imposta por esses tiranos senhores receptores das imensas propriedades. Então, o brasileiro, diferentemente da versão de Sérgio Buarque de Holanda, não foi formado culturalmente segundo os padrões portugueses, mas escravocratas. 

Portanto, todos nós brasileiros “patrimonialistas” e “homens cordiais” na conservadora e estreita visão de mundo buarquista, somos, na verdade, oriundos de uma sociedade exploradora e escravocrata que usava a força bruta e o nome de Deus para expropriar os miseráveis que eles próprios criaram. Noutras palavras, somos uma sociedade violenta e fundamentada na exploração dos mais fracos pelos mais fortes.



O MUNDO QUE A ESCRAVIDÃO CRIOU

A explicação dominante do vira-lata brasileiro, emotivo, patrimonialista, corrupto, mais animalizado que espiritualizado, que conseguiu corromper até o próprio estado do qual se apropriou e que tudo isso veio de Portugal, foi quem possibilitou até o presente momento toda essa manipulação midiática e política contra a democracia e os interesses maiores do país e do povo de que temos sido sistemática e ciclicamente vítimas, tem encontrado a sua fundamentação nessa falsa premissa histórica e sociológica adotada pelos nossos intelectuais do passado.

Qualquer explicação sociológica que queira se constituir como dominante, precisa dar conta de três questões básicas e fundamentais que responda à totalidade social. Ou seja, ela tem que esclarecer as três questões principais tanto para os indivíduos quanto para as sociedades: de onde viemos, quem somos e para onde vamos? A teoria que responde a essas três questões de forma convincente tanto para os indivíduos quanto para as sociedades - é a que se candidata a interpretação dominante definindo a forma como toda uma sociedade realmente se vê. 

Não por acaso, são também essas as três questões que todas as religiões bem-sucedidas respondem a seus fieis. A única teoria brasileira que responde a essas três questões de modo mais ou menos convincente é a teoria implícita racista do culturalismo conservador entre nós. Não existe nenhuma outra teoria nacional com essa abrangência. A nossa esquerda, por exemplo, jamais desenvolveu uma concepção crítica a essa teoria e, por conta disso, tem sido colonizada na mente e no coração por esse culturalismo conservador com efeitos práticos devastadores como os famigerados e recorrentes golpes de estado tão comum entre nós.

Como muita gente inteligente e até especialistas não percebem a importância da noção de totalidade para a eficácia de uma explicação, se imagina que qualquer explicação sobre tópicos específicos por mais geniais que possam ser, constituam uma teoria abrangente que daria conta da totalidade referida cima. Assim, para se criticar o Brasil do presente e compreender o que está em jogo na política e na manipulação da política como forma de dominação econômica e simbólica, torna-se necessário construir uma alternativa que descontrua o culturalismo racista conservador e se possa construir uma sociedade brasileira em um sentido novo e critico.

A RALÉ DE NOVOS ESCRAVOS COMO CONTINUAÇÃO DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL MODERNO 

Nesse capitulo vou me atrever a abdicar do que consta no livro e meter a minha própria colher dizendo o que penso a esse respeito: quando os EUA aboliu a escravidão quase um século antes de nós – lá foi dado a cada escravo pai de família um arado de ferro, uma mula com três anos de idade, sementes francas e variadas para o plantio e vinte e cinco acres de terra naqueles estados americanos que estavam sendo colonizados, fato que formou naquele país uma espécie de classe média de cor que ainda existe hoje.

Aqui no Brasil, o processo ocorreu de forma completamente diferente. A abolição de nossa escravatura que, infelizmente, ainda não se concretizou, ocorreu da seguinte maneira: simplesmente se fecharam as nossas senzalas que por quase quatrocentos anos foram palcos de tantas desumanidades e, infelizmente, os que na época foram declarados cidadãos “livres” foram expulsos daqueles tão horripilentos lugares e jogados como se diz no olho da rua abandonados à própria sorte.

E são justamente hoje os milhões de descendentes dessas infelizes criaturas que no passado foram impiedosamente expulsas das senzalas brasileiras que ainda continuam abandonadas nas periferias das nossas cidades na vã esperança de que um dia apareça algum salvador da pátria e faça com elas o que foi feito nos EUA com os seus antigos escravos. E olhe que lá, nos EUA, o preconceito racial aparentemente era e ainda é bem maior que o nosso.

A sorte maior desses nefastos senhores de nossa Elite do Atraso no Brasil é que, infelizmente, essa gente tão explorada e sofrida e que é a maioria absoluta de toda a nossa população, não têm a mínima consciência de tamanha crueldade que fizeram e ainda fazem a ela. Por nunca terem tido acesso a essas informações nem nas escolas públicas que por necessidade frequentavam e ainda frequentam e nem tampouco na mídia excludente e alienadora para que não se formasse em suas cabeças um mínimo juízo de valor sobre o que lhes aconteceu no passado e continua acontecendo no presente, essas informações têm sido escondidas dela como se diz popularmente a sete chaves. 

COMO SE FORMARAM AS CLASSES SOCIAIS NO BRASIL

Na formação das quatro classes sociais brasileiras, um componente significativamente importante e de forma bastante diversificada foi agregado a cada uma delas individualmente. E é esse tão importante componente que caracteriza as nossas quatro classes sociais e que é chamado simplesmente de capital. A classe dominante ou dos ricos, não por capacidade, mas por simples acúmulo de privilégios incorporou, explorando todas as outras três classes, o que Jessé Souza chama de capital social e econômico ou o próprio dinheiro. Ela é a classe mais poderosa e vive praticamente da exploração do trabalho de todas as outras classes inferiores a ela.

A classe média incorporou o capital cultural e também parte do social caracterizado pelo conhecimento reconhecidamente importante para o funcionamento de toda a burocracia tanto da produção na iniciativa privada quanto do próprio estado, e com isso, ela se habilitou em administrar não somente o estado mais também o patrimônio da classe dominante que a usa como capataz de seus interesses de classe, ou contra ela mesma quando, coadjuvada pela mídia é estimulada a defender os interesses maiores da classe dominante.

A classe dos Trabalhadores é a semiqualificada e que detém uma espécie de capital profissional do trabalho que não é muito adequado a ser apropriado pela classe média um pouco mais refinada em seus gostos culturais, mas que é também muito importante em todo o processo produtivo porque é essa classe que bota a mão na massa como se diz e fabrica os automóveis, eletrodomésticos, prepara e monta as grandes estruturas idealizadas e criadas pela engenharia e pela indústria pesada e de base. Essa classe tem uma importância significativa principalmente porque ela executa os trabalhos administrados e criados pela casse média. 

A classe da Ralé é finalmente a mais numerosa e também a mais explorada de todas e é formada por todos aqueles descendentes dos antigos escravos que foram abandonados no passado e que de forma miscigenada estão aí hoje na forma de pretos, pardos, mulatos e aparentes brancos que pelo simples fato de não terem tido a oportunidade de se apropriar de nenhum capital que não seja o do trabalho pesado, se ocupam como jardineiros, vigias, biscateiros, mateiros, operários de salina, pescadores, pequenos agricultores e vendedores ambulantes. 

TIPOS DE CLASSE MÉDIA QUE SE FORMOU NO BRASIL 

A classe média como já se sabe é uma classe muito importante não somente no nosso contexto social, mas também em todo o mundo capitalista, até porque ela se desdobra, segundo o autor, em quatro segmentações ou nichos ou frações de classe, assim discriminadas: 

A Fração da Protofascista da Classe Média – É formada por aproximadamente 30 % do total da nossa classe média e é responsável pelos gigantescos movimentos de rua induzidos pela mídia golpista da classe dominante quando percebe seus privilégios serem ameaçados por algum aventureiro politico oriundo de uma ou outra classe inferior. São os moralistas de goela que batiam panelas nas ruas pedindo a saída da presidenta Dilma alegando moralismo administrativo e agora quando a imoralidade é visivelmente bem maior, ela desapareceu do cenário fazendo justamente o trabalho sujo que a classe dominante subconscientemente lhe induziu e delegou através da mídia. 

A Fração Liberal da Classe Média – Em termos quantitativos é a maior no Brasil com aproximadamente 35 % do total de nossa classe média caracterizando-se por ser um grupo intermediário entre a protofascista mais reacionária e com falso moralismo, e a expressivista menos reacionária e alienada, apresentando um capital cultural um pouco maior que a protofascista e menor que a expressivista. 

A Fração Expressivista ou de Oslo da Classe Média – É formada por aproximadamente 20 % do total da classe média brasileira e apresenta um capital cultural bem maior que a liberal e com mais experiência e bom gosto nos passeios, leituras, viagens e visão de mundo mais acurada, apesar de também ser induzida e manipulada quando realmente interessa a classe dominante.

A Fração Crítica da Classe Média – é formada por 15 % do total de nossa classe média, sendo a classe média mais preparada de todas as outras anteriores. Geralmente é formada por mestres e doutores, falam outras línguas e tem um gosto mais sofisticado do que as outras classes sociais. Não raras vezes demonstram lampejos de que compreendem a profundidade e virulência da desigualdade da luta de classes, mas, como sempre, a zona de conforto a convoca para se manter na imobilidade e ali sempre tem permanecido.

O PACTO ANTIPOPULAR DA ELITE COM A CLASSE MÉDIA

No contexto das quatro grandes classes sociais dividas internamente entre diversas frações, que caracterizam a sociedade brasileira contemporânea, a saber: a elite dos proprietários, a classe média e suas frações, a classe trabalhadora semiqualificada e a classe ralé de novos escravos que é a classe social mais estratégica para o padrão de dominação social e econômica que foi instaurado no Brasil é a classe média. 

Ainda que a classe trabalhadora tenha, em diversas fases de nossa história, forçado os estreitos limites previstos na estratégia excludente que tem marcado a politica brasileira, para a compreensão do pacto de dominação reacionário que prevaleceu no Brasil de ontem e no de hoje também, torna-se necessário, antes de tudo, compreender o comportamento da nossa classe média. 

A Elite dos proprietários mantém o seu padrão predatório de sempre. A grilagem de terra, covarde e assassina como sempre, foi e ainda é uma espécie de acumulação primitiva de capital eterna no Brasil. Os grandes latifundiários brasileiros aumentavam suas terras e riquezas pela ameaça e pelo assassinato de posseiros e vizinhos, como ainda acontece hoje.

Nada muda significativamente com a elite do dinheiro que compra o Parlamento, sentenças de juízes, como acontece ainda hoje, a imprensa e até mesmo o que mais for necessário para manter os seus privilégios de classe intactos. O que importa é garantir a qualquer custo o saque ao orçamento público, a rapina das riquezas nacionais como sócio menor do capital estrangeiro e a quebra do ânimo e da solidariedade dos trabalhadores para a maior exploração possível, do trabalho.

A CORRUPÇÃO DO TOLOS

Hoje, infelizmente, ainda se assiste pelo noticiário dos rádios ou da TV a balburdia sobre a corrução praticamente oficializada nesse país. Pelo bombardeio da mídia os mais avisados percebem logo que a corrupção que ela divulga não é a verdadeira e grandiosa corrupção imposta ao estado e ao povo pelo famigerado mercado financeiro que é, na verdade, o maior corruptor não somente desse país tupiniquim, mais também de todo o mundo capitalista. 

A imprensa que tem sido a sua eterna aliada nesse ignominioso e torpe processo de praticar o crime e botar a culpa nos agentes políticos que representam o estado e até como uma forma maquiavélica de demonizá-lo também, afinal de contas, quanto mais o estado e seus agentes estiverem desqualificados perante a opinião pública de um país, mais fácil será extorqui-lo e dele se apropriar, às vezes até com solenes aplausos da própria população alienada, desnorteada e despolitizada pela mídia que plasma a mente e, por fim, imbeciliza as pessoas.

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